Vetorização ou ensinamento do canto
O
resultado do melhoramento genético alcançado por criteriosos
programas de seleção voltados para a habilidade de aprendizado
de canto, voz e repetição tornou-se evidente nos últimos
anos. A maioria dos planteis que busca o aprimoramento tem disponível
genética favorável. No entanto, ainda é pequeno
o número de curiós com excelente qualidade de canto. A
questão da vetorização, ou ensinamento do dialeto
que se pretende que o filhote venha a cantar, ganha especial importância
para que se reverta esse quadro.
Acreditamos
que o grande gargalo do desenvolvimento do canto clássico está
na necessidade de combinar genética favorável com um adequado
manejo no ambiente de criação, o que nem sempre é
possível, principalmente para uma grande produção
de filhotes. A necessidade de infraestrutura é grande e, normalmente,
indisponível para a maioria dos filhotes.
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A
discussão sobre a idade com que um filhote de curió inicia
o aprendizado do canto é interminável. Alguns afirmam
que o aprendizado pode ser iniciado após a saída do ninho,
com cerca de 13 ou 14 dias vida. Os mais neuróticos defendem
que desde o ovo o filhote já percebe o canto pelas vibrações
sonoras. Exageros à parte, há consenso, entre os criadores
mais experientes, quanto ao primeiro mês de vida ser decisivo
no processo. Quando um filhote é separado da mãe, já
está vetorizado. A partir daí, pouco se poderá
fazer para que melhore seu desempenho canoro.
Sempre
ouviremos relatos de um filhote que veio de um criatório onde
o canto era o vi-vi-te-teu, já com 90 dias de vida, e encartou
o paracambi. Nunca poderemos fazer da exceção a regra.
Fenômenos inexplicáveis acontecem vez ou outra.
Há,
ainda, que ser considerado o instinto natural do pássaro, que
o motiva a tentar aprender e executar o dialeto cantado na nova comunidade.
Nos referimos, naturalmente, a uma comunidade com vários curiós
cantando um mesmo dialeto. Nem consideramos a possibilidade de uma bateria
de canto clássico nas prateleiras de um criatório.
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O
manejo coletivo de filhotes é comprometedor para o processo de
ensinamento do canto, ainda que não ouçam galadores com
canto deficiente ou fêmeas solteiras. A reunião de filhotes
em um mesmo ambiente os distrairá da instrução
de canto e logo o corrichado de um interferirá no aprendizado
dos demais. É pouco provável que um filhote mantido nessas
condições venha a apresentar um bom desempenho no canto
clássico.
O
manejo ideal é individualizado. A fêmea galada deve ser
levada para um ambiente acusticamente isolado, onde não ouça
nada além da instrução de canto. Os filhotes separados
da mãe seguirão: fêmeas para os gaiolões
de recria e machos para o isolamento acústico individual.
Há
criadores que têm investido na criação artificial
dos filhotes, retirados das suas mães nos primeiros dias de vida,
colocados em incubadoras e alimentados com a seringa (recomendamos a
leitura do artigo
Incubação e Alimentação Artificial de Filhotes).
Essa prática, consorciada com o uso de cabines de isolamento
acústico, tem resultado em um percentual maior de pássaros
cantando o canto clássico com perfeição. Contudo,
se mantida por muitas gerações, poderá comprometer
a habilidade materna das fêmeas, como ocorreu com a avicultura
de produção.
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O
cômodo isolado para receber a fêmea galada é a melhor
opção, mas exige investimentos elevados e um espaço
disponível cada vez mais difícil nas grandes metrópoles.
A fabricação de cabines de isolamento acústico,
com medidas que permitem a colocação de uma gaiola de
cria para que, em seu interior, a fêmea efetue a postura e crie
sua ninhada, é uma solução eficiente e com um custo
menor. Vale lembrar que não existe cabine com isolamento acústico
perfeito (recomendamos a leitura do artigo Cabines de Isolamento Acústico
- Possibilidades e Limitações).
| Há necessidade de acostumar a fêmea com
essa instalação muito antes da estação
reprodutiva. Caso contrário, ela poderá estranhar
a cabine e efetuar a postura fora do ninho, não iniciar ou
interromper choco. Algumas nunca se adaptam a esse manejo. |
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As
cabines devem ser organizadas em um cômodo isolado do criatório,
em um local onde não se ouça canto de pássaros
ou seja ouvido apenas um mestre com canto perfeito. Uma cabine não
poderá ser encostada a outra, caso contrário haverá
transmissão sonora. No ambiente externo às cabines poderá
haver sonorização com rádio sintonizado em estação
FM, com a finalidade de minimizar quaisquer invasões sonoras
nocivas. Nesse mesmo ambiente, poderão estar cabines para as
fêmeas com ninhadas e individuais para pássaros em lapidação
do canto. Reiteramos que se um pássaro cantar no mesmo ambiente
onde estão as cabines, será ouvido pelos filhotes em seu
interior. O isolamento funciona de uma cabine para outra e não
do ambiente para o seu interior.
Outra
questão fundamental é a qualidade do equipamento de sonorização.
Algumas cabines produzidas comercialmente, por questão de custo,
são equipadas com auto-falantes de péssima qualidade.
O aparelho que reproduz a instrução de canto também
deve ser de qualidade superior. A qualidade do som daquelas caixinhas
fabricadas para uso em computadores, salvo raríssimas e caríssimas
exceções, é do tipo "ninguém merece".
O
emprego de curiós mestres de canto é um facilitador do
processo de vetorização. Certamente o filhote terá
mais facilidade para aprender um canto ouvindo um curió adulto.
Poucos criadores, no entanto, se valem desse expediente. Em primeiro
lugar, pela dificuldade de encontrar um pássaro com canto perfeito
e com personalidade adequada ao ensinamento de filhotes. Em segundo
lugar, por estar mais do que comprovada a possibilidade de aprendizado
dos curiós a partir de lições de canto. A favor
do emprego de lições de canto ainda pesa o fato de que
sua execução é rigorosamente igual, sempre com
a perfeição estabelecida no momento de sua gravação.
Um professor de canto não executará todas as suas cantadas
com perfeição. Por melhor que seja, em determinados momentos
suprimirá notas ou cortará cantos. Com o passar dos anos,
a qualidade do seu canto diminuirá.
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Para
os que têm disponibilidade de um curió com excelente qualidade
de canto, um manejo muito adequado é a sua manutenção
no ambiente em que ficam as cabines com os filhotes em aprendizado.
O canto do mestre será ouvido pelos filhotes no interior das
cabines. O corrichado e os assovios dos filhotes não perturbarão
o canto do mestre. Isso se deve ao fato de que o material absorvente
acústico, que reveste internamente a cabine, absorve boa parte
do som e dificulta a saída para o exterior. Há quem empregue
esse método e mantenha a cabine, de um filhote por vez, com a
porta aberta durante alguns minutos por dia, para que escute melhor
o professor.
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Mestre cantando no mesmo ambiente das cabines
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A
gravação da lição de canto que será
passada para o filhote é decisiva para o aprendizado.
São
muitas as lendas sobre CDs para ensinamento de filhotes. A mais desprovida
de embasamento técnico é que a gravação
só presta se o CD for original. Uma cópia com os recursos
de computador pessoal poderia comprometer o aprendizado por gravá-la
fora da frequência ideal. Isso é informação
plantada por produtores de CDs para aterrorizar os passarinheiros, evitando
duplicações. Depois de gravada no CD, a gravação
digital não passa de uma sequência de zeros e uns (0 e
1) que é a informação que pode ser representada
pelo bit (digito binário). Diferentemente do sistema analógico
antigo, quando o sinal poderia assumir outro valor, inclusive os de
chiados e estalidos.
Nos
CDs profissionais, é elaborada uma matriz e a mídia é
prensada. A área destinada ao bit é mais baixa ou mais
alta, conforme signifique 0 ou 1. O feixe de laser do leitor passando
sobre a trilha do CD vai ler 0 ou 1 e informando ao sistema. Nos CDs
graváveis em computadores, no interior da mídia, há
uma substância química sensível à luz do
laser que reage à sua passagem durante a gravação,
tornando-se mais ou menos reflexiva, conforme signifique 0 ou 1. Dessa
forma engana o leitor do aparelho de som que pensará que a superfície
é mais alta ou mais baixa. Naturalmente que esse processo está
sujeito a falhas, principalmente em função da qualidade
da mídia, e sua durabilidade também será menor.
Se a gravação deu certo, o som que escutamos é
o mesmo da gravação original. Se não foi boa a
gravação, o CD não será reconhecido pelo
aparelho de som ou parte da gravação não será
reproduzida.
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Não
incentivamos, por forma alguma, a pirataria de CDs. Eles foram produzidos
com alto custo e refletem um investimento comercial que busca retorno.
E é assim que deve ser. Se não houver retorno dos investimentos,
as empresas não estarão mais interessadas em novas produções
e todos perderemos com isso. Mas comprar um CD original, extrair uma
faixa de áudio e editá-la para uso pessoal conforme nossas
necessidades é um procedimento legítimo.
Outra
lenda conhecida é a de que devemos empregar uma gravação
para ensinar o canto. Após certa fase mudar para uma gravação
mais rica em notas. Empregar uma gravação para estimular
o pássaro a repetir ou outra para melhorar o andamento e o balanço.
Em
nosso entendimento, devemos ensinar para o filhote o canto como esperamos
que ele cante quando for maduro. O mesmo conjunto de notas com o mesmo
andamento, desde o primeiro dia. A questão da repetição
é genética, mas, após termos certeza de que a entrada
de canto foi assimilada, poderemos empregar uma gravação,
do mesmo canto, com um maior numero de repetições. Não
existe um artifício que possa induzir um curió a repetir
além de sua predisposição genética. Individualmente,
poderemos alterar a intensidade de alguma determinada nota do canto,
quando observamos que o curió a está negando ou executando
de forma muito discreta. Mas esse é outro caso.
Reflete a possibilidade de elaborarmos uma lição de correção
específica para determinado pássaro.
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Cada
criador, segundo a sua experiência, terá a sua lição
de canto adaptada as suas preferências. Citaremos alguns princípios
que consideramos importantes no planejamento de uma gravação
para ensinamento de filhotes.
Se
o número de repetições for muito grande, o filhote
irá memorizar apenas o módulo de repetição,
por ter ouvido pouco a entrada de canto.
Se
a gravação contiver cantadas com um canto e uma ou duas
repetições, o filhote poderá memorizar o canto
de entrada e o módulo de repetição como se o canto
fosse. Quando for repetir, cantará a entrada e o módulo
de repetição e, sem intervalo, repetira novamente o canto
de entrada com o módulo de repetição, em um defeito
conhecido como retorno de canto.
Consideramos
adequada a gravação com várias cantadas com 3 repetições,
algumas de com 5 e uma com 7.
Se
o intervalo entre uma cantada e outra na gravação da lição
for muito pequeno, poderá levar o filhote ao retorno de canto.
Consideramos que um adequado intervalo entre cantadas deva ter de 30
a 45 segundos.
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Pialados
são importantes para chamar a atenção do filhote
antes do início da cantada. Dessa forma estará atento
ao início do canto. Em lições nas quais as pialadas
não são inseridas é comum que os filhotes apresentem
defeitos na entrada de canto, iniciando a cantada com a falta das primeiras
notas do canto de entrada. Em nossa opinião, as pialadas devem
estar entre 7 e 4 segundos antes do início da cantada.
A
elaboração de lições de canto está
ao alcance de qualquer pessoa que disponha de um computador com gravador
de CDs. Há vários programas de edição de
áudio. Alguns de distribuição gratuita.
Consideramos
a melhor opção o Sony Sound Forge que pode ser obtido
em versão de avaliação pelo prazo de 30 dias. Para
quem desejar conhecer os recursos desse programa está disponível
um manual em português da versão 7.0. Basta clicar em MANUAL
SOUND FORGE.
Uma
outra questão sobre a qual não há consenso é
o tempo em que o canto deve ser executado e o intervalo em que deve
haver silêncio. Se o canto for executado continuamente o filhote
se desinteressará por ele, ficando refratário à
lição de canto. Se o intervalo em silencio for demasiado,
o filhote permanecerá pouco tempo ouvindo o canto. Consideramos
que 20 minutos de canto e um intervalo de 30 minutos de silencio é
manejo bastante adequado. Isso pode ser determinado na elaboração
da lição de canto, gravando-se 20 minutos com cantadas
e pialados e 30 minutos com som de água. Esse método dispensa
o uso de timer. O CD player tocará o CD com a lição
de canto no modo de repetição e o intervalo será
determinado pela gravação do som de água. Além
de dispensar o uso timer, esse método evita o liga/desliga
do aparelho de som, que reduz sua vida útil. O som de água
é estimulante para os pássaros.
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Costumamos
empregar CD players automotivos alimentados com fontes que transformam
a tensão da rede elétrica de 220 ou 110 Volts em 12 Volts
e auto-falantes triaxiais. As lições rodam na programação
continua do aparelho, que pode ser ligado a um timer analógico,
iniciando e desligando em horários determinados.
Encontramos nessa adaptação a melhor relação
custo/qualidade de áudio.
Temos
de nos preocupar com o ambiente em que ficam os pássaros recriados
isoladamente e fora das cabines de isolamento acústico. Ambientes
fechados ou com paredes revestidas por cerâmica são terríveis
para causar reverberação no som, comprometendo o aprendizado.
O
assunto não pode ser esgotado em algumas poucas páginas.
Ainda
há muito que ser compreendido sobre o ensinamento de canto.
Devemos
continuar estudando e divulgando nossas experiências na busca
pelos melhores resultados.
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