A imagem do Buldogue faz parte do inconsciente coletivo. Nos desenhos animados, a figura do cão de guarda é representada por Buldogues. São inúmeras as logomarcas de que usam a imagem do Buldogue como símbolo de segurança, fidelidade, determinação e proteção.

Nossa infância foi passada em contato com os "bordogues". Ainda guri, na fazenda de meu avô, acostumei-me a observar o trabalho dos "bordogues". Ainda muito cedo ouvia a voz do meu avô: "Capanga, as vaca! As vaca, Capanga!" E lá se ia o "bordogue", pisando a geada e latindo, feliz da vida. Em pouco tempo, as vacas estavam reunidas na porteira do piquete, prontas para serem recolhidas ao mangueiro para a ordenha matinal. Não havia violência. As vacas eram acostumadas com o Capanga e o Capanga, com as vacas. O "bordogue" parecia alegrar-se quando uma vaca se demorava por conta de um bocado a mais de pasto pelo caminho. Era a sua oportunidade de dar uns latidos e até uma mordida se ela insistisse no retardo.

Havia, ainda, na fazenda, duas cadelas "bordogue" que só cruzavam com o Capanga. A Preta, como o nome sugere, possuía pelagem negra e a Brasina era tigrada. Era comum as cadelas sumirem no mato quando estavam para parir, reaparecendo na sede com os filhotes já caminhando. Sobreviviam esse tempo caçando lebres e preás. Os filhotes do Capanga eram valorizados na região, reconhecidos por darem bons de lida.

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Lembro também do "bordogue" do Nenê Buava, conhecido ginete da região, que andava changueando pelas estâncias, empreitando tropa para amansar. Era costume ver o Nenê tragueado, caído à sombra de uma árvore qualquer. Nunca soube beber. O quadro era sempre o mesmo. O pingo encilhado, pastando nas proximidades, e o "bordogue" deitado ao lado do Nenê. Não havia possibilidade de alguém se aproximar para ajudar o Nenê a levantar-se. O "bordogue" virava uma onça. E em condições normais, o "bordogue" era manso de brincar com qualquer um.

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Quando a idade obrigou, meu avô vendeu a fazenda. Apenas o Capanga foi levado para a cidade, onde morreu já muito velho. Muitas vezes flagrei meu avô mateando com o Capanga deitado ao seu lado. Nenhum dos dois se adaptou bem à mudança de vida. Meu avô parece jamais ter se recuperado da perda do companheiro.


Em 2004 meu filho, com 4 anos de idade, pediu um cachorro para a minha esposa. Morávamos em apartamento. Decidi que não teríamos cachorro. Mas não teve jeito. Na negociação, porém, a raça seria escolhida por mim. E fomos procurar um "bordogue".
Minha esposa iniciou as buscas na internet e encontrou o site do canil Molosso di Jerivá. O "bordogue" tinha virado Buldogue Campeiro e estava disponível. Ainda enrolei um bocado, estudando o padrão da raça e acompanhando as ninhadas que nasciam no canil do amigo Fernando Starling.

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Nasceu uma ninhada da Branquinha (cadela que serviu de referência para o standard da raça) com o Urso. Lá estava uma filhotinha baia com branco, que minha esposa havia se encantado ainda pelo site, se destacando na ninhada. Nem era a melhor da ninhada, mas chamou nossa atenção pela tipicidade e desenvoltura. Chegamos com ela no apartamento fazendo planos para comprar uma casa.


O Fernando me liquidou com a recomendação de que o filhote não poderia ter contato com outros cães antes da última dose da vacina. Foram dois meses de reclusão.



Hanna no apartamento

A Hanna criou todos os problemas que qualquer filhote criaria em um apartamento. A única imposição da minha esposa foi de que à cadelinha jamais seria permitido subir em sua nova poltrona de leitura. Foi a primeira que ela roeu.

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A Hanna rapidamente compreendeu a rotina da casa. Fazia as necessidades sobre as folhas de jornal e desenvolveu um amor incondicional pelo meu filho. Com a possibilidade de passear na rua, tudo ficou muito tranqüilo. Eu descia com ela pela manhã e à noite. Minha esposa passeava um pouco com ela na hora do almoço. A Hanna brincava com outros cães e era adorada por todas as crianças da vizinhança.

Já que eu caminhava com ela na guia todos os dias, resolvi comprar um manual de adestramento de cães e tentar ensinar alguma coisa para a cadela. O manual recomendava iniciar o adestramento após os seis meses de idade, mas a ansiedade me fez ir adiantando umas coisinhas.
Foi uma experiência fantástica. Aos seis meses, a Hanna já executava todos os comandos básicos, Para, Senta, Deita, Fica e Junto. Até o Morto/Vivo ela aprendeu. Tudo com uma facilidade impressionante.


Companhia até o portão da escola

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Parceira nas brincadeiras
Mudamos para uma casa e a dificuldade foi convencer a Hanna de que agora não mais poderia entrar em casa. Ela adaptou-se a nova realidade, mas muito a contra-gosto. Aproveitava qualquer descuido para se esconder dentro de casa, no que sempre foi acobertada pelo meu filho Bruno.

Decidimos adquirir um macho. Compramos um filho do Tambo, um dos cachorros mais bonitos que já vi. Estrutura física no mesmo nível dos melhores exemplares que encontrei na internet ou vi em exposições.

Com ele vieram os problemas. O cachorro é muito agitado, impaciente, estabanado, ciumento e não se socializa com outros cães, quer toda a atenção e carinho disponíveis apenas para ele.
Não temos um canil. Apenas temos cães como animais de estimação, que permanecem soltos no quintal durante todo o tempo. Só vão para o canil quando recebemos visita. Ele tornou-se um fator de desconforto no quintal: pulava sobre as pessoas, fazendo festa, sem a consciência dos seus 45 quilos. O cão é bom guarda, mas pouco obediente. Atende aos meus comandos com certa indolência e não costuma obedecer a mais ninguém da família. Apesar disso, jamais demonstrou agressividade com nenhum de nós.

Embora gostássemos muito dele, entendi que ele não deveria ser empregado na reprodução. Não quero produzir um cão para ficar preso em um canil. Quero produzir um cão que tenha temperamento adequado ao convívio com as pessoas da família, em harmonia com a rotina da casa. O cão foi doado para outro criador, que vive outras circunstâncias e pôde recebê-lo. O Fernando, informado, nunca mais repetiu o acasalamento a mesma fêmea.

Filho do Tambo

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A Hanna entrou no terceiro cio e a levei para ser coberta no Canil Molosso di Jerivá. Não queria usar o Tambo como reprodutor até poder observar o comportamento de outros filhotes dele. Mais tarde ficamos sabendo de muitos filhos do Tambo que apresentam ótimo temperamento.

Tentei convencer o Fernando a permitir a cobertura com o Johnny, um Olde English importado, muito bonito e com ótimo temperamento. O Fernando não permitiu. Não que seja um desses puristas xiítas da raça. Mas o canil já comercializou mais de uma centena de ninhadas. É um empreendimento comercial que tem que manter uma postura completamente alinhada com a CBKC. Suas matrizes e reprodutores devem permanecer à disposição de qualquer cliente que deseje comprovar a legitimidade do pedigree do filhote adquirido por exame de DNA. A CBKC não reconhece a legitimidade do cruzamento.

Bianca, Hanna e Tita
no banho de sol matinal



Até aí eu não havia concordado, pois os filhotes seriam meus. Eu compraria a cobertura e o canil não teria responsabilidade sobre isso. Com o argumento de que se eu usasse um dos reprodutores Campeiros do Molosso di Jerivá, ele poderia registrar a ninhada e até me auxiliaria na comercialização dos filhote que, por ventura, eu desejasse vender, fui convencido. Eu não precisaria pagar pela cobertura. Ele receberia o pagamento em filhotes, conforme as regras de mercado.

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Escolhi o Storm. A Hanna não possuia um estrutura corporal avantajada, mas era muito caracterizada. O Storm apresenta ótimo volume corporal com uma estrutura óssea excelente. Além disso, como o Urso, também é isento de displasia coxo-femural. O resultado do acasalamento foi fantástico. As imagens que estão no cabeçalho da página são de duas cadelas dessa ninhada (Frida e Tita). Os filhotes foram comercializados assim que as fotografias chegaram ao site do Canil. Meu filho não abriu mão de ficar com um dos filhotes, que nasceram no dia de seu aniversário. Escolheu a Tita.

Na segunda ninhada desse cruzamento, já havia mais criadores aguardando filhotes do que a disponibilidade. Desta ninhada, ficamos com a Bianca e com a Letter, que é mantida na casa do vizinho, embora estejamos sempre juntos.

Pressionado pela demanda dos que desejavam adquirir filhotes desse acasalamento e pela minha esposa que não queria mais cachorro em casa, acabei não ficando com nenhum filhote da terceira e última ninhada.

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A Hanna morreu pouco depois de completar 4 anos, em circunstâncias que até hoje não me são claras. Minha esposa estava no hospital por conta de uma cirurgia e eu vim rapidamente em casa alimentar os cães. A Hanna estava morta. Envenenamento? Um mal súbito? Nunca saberei ao certo, pois com a correria, nem necropsia pude providenciar. Foi um golpe duríssimo para todos.

Permanece viva em nossa memória e nas suas filhas que estão conosco. Enquanto Deus me der vida lembrarei dela abrindo as portas para se enfiar dentro de casa, como se tivesse uma capa de invisibilidade.



Flagrante do nosso quintal


A Tita já deu duas ninhadas, acasalada com o Tambo. O resultado não poderia ter sido melhor. Um dos filhotes ficou no Canil Molosso di Jerivá e se chama Ghandi (Campeão do Ranking CBKC 2008).

Uma filha que agora é chamada Shakira foi doada para um casal de amigos, com o compromisso de podermos empregá-la na reprodução, se desejarmos. É uma cadela fantástica, que virou a paixão da família.

Todos os filhotes da segunda ninhada da Tita, anunciados no site do Canil Molosso di Jerivá, foram reservados desde que nasceram. A Letter, sua irmã, foi coberta pelo Tambo e teve a primeira ninhada no início de março de 2009. O resultado foi ótimo e todos os filhotes foram comercializados com facilidade.

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