A inserção de English Bulldog na raça Buldogue Campeiro.

Não é necessário profundo conhecimento de cinofilia para saber que em 20 ou 30 anos de seleção teria sido impossível partir do que restou dos antigos bordogues e chegar ao fenótipo do Buldogue Campeiro atual sem a inserção de English Bulldog. Nada há de errado nisso. A formação de qualquer raça é sempre feita pela combinação de outras.

Mesmo após o reconhecimento da raça, com a publicação do seu padrão pela CBKC, muitos criadores continuaram produzindo mestiços de BI e registrando como RI (Registro Inicial, concedido ao cão que, embora não possua registro genealógico, se enquadre no padrão da raça). O RI é um instrumento fundamental na formação de uma nova raça e na recuperação de cães que, por alguma razão, ficaram fora do registro genealógico. Esse processo, no entanto, carece de ética e transparência. Um exemplar filho de RIs pode trazer consigo uma enorme quantidade de genes recessivos que poderão aflorar em sua progênie. Quem adquire um filhote desses cruzamentos somente poderá estimar as perspectivas do seu emprego futuro na reprodução se for clara a forma como se chegou aos seus ancestrais RIs. Essa transparência faltou e continua faltando em muitos casos.

Pior ainda que o emprego de um RI produzido sem transparência é o aproveitamento de um mestiço na reprodução como dublê de outro Campeiro registrado. Isso compromete todo o registro genealógico da raça. Ocorrências dessa natureza são comuns em todos os segmentos da produção animal nos quais se controla genealogia sem comprovação de paternidade por DNA.

As inserções poderão ser aceitáveis para a raça, pela necessidade de refrescamento de linhagens, mas deverão seguir um protocolo definido.

Um bom exemplo de protocolo para a inserção do BI seria:

O English Bulldog deverá passar por um cruzamento intermediário, não sendo, em nenhuma hipótese, empregado diretamente em cadelas Campeiras. Esse cruzamento intermediário funciona como filtro, para minimizar a transmissão de características indesejáveis para a raça.

Será efetuado o cruzamento de um English Bulldog, preferencialmente de linhagem americana, que apresenta melhor fisiologia e maior dimensão física, com uma fêmea de American Bulldog de linhagens Bully ou Johnson, mais próximas do fenótipo desejado. O produto desse cruzamento, com fenótipo mais adequado, terá seu temperamento avaliado e, após comprovação de ausência de displasia coxo-femural e de demodecicose, será cruzado com um Campeiro de fato, produzindo filhotes candidatos a receberem o registro inicial da raça.

No pedigree desses filhotes deveria constar o registro dos seus ancestrais. Esse seria um RI obtido de forma ética e transparente, nos moldes adotados pela IOEBA (International Olde English Bulldogge) nos EUA.

Nos parece evidente que os BIs empregados foram os que estavam disponíveis e não necessariamente os das melhores linhagens. Não se tem relato de um BI Top que tenha sido empregado na mestiçagem de campeiros.

A inserção atabalhoada do BI trouxe para raça um fenótipo mais forte e abuldogado. No entanto, incluiu o tradicional pacote de problemas do English Bulldog, como dificuldade com a reprodução - muitas ninhadas de Campeiro, atualmente, são obtidas por inseminação artificial por conta da inaptidão dos pradeadores para a monta natural -, sistema imunológico mais delicado, olhos de cereja e doenças de pele, especialmente a demodecicose, que passaram a ser mais frequentes no Campeiro.

Os BIs também trazem prejuízo ao temperamento da raça, são mais ciumentos, ansiosos, menos sociáveis e sem a menor aptidão para a guarda.

Se o English Bulldog continuar sendo empregado desordenadamente, terminaremos por transformar o Buldogue Campeiro em um English Bulldog maior, com sacrifício de sua funcionalidade.

Esse problema não está presente apenas no Campeiro. Nos EUA a lâmpada vermelha já ascendeu. A demanda do mercado por cães mais robustos tem levado criadores de Olde English Bulldogge e de American Bulldog a introduzir English Bulldog em seus planteis.

Já é possível observar reprodutores em atividade nos melhores canis dos EUA com forte influência de ingleses.

Dois Buldogues Americanos. O da direita evidencia o sangue inglês

Dois Olde English Bulldogge. O da direita evidencia o sangue inglês

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