Quando o Instituto Chico Mendes, por preciosismo burocrático, embargou a obra de ampliação da DF 150, a sociedade revoltou-se, as lideranças foram acionadas e rapidamente, a situação foi revertida.
Os passarinheiros nunca puderam contar com qualquer apoio no seu relacionamento
com o IBAMA. Por culpa exclusivamente nossa, que nunca nos reunimos na busca
por essa maior representatividade. Mas o elástico da tolerância
chegou ao seu porto de ruptura. Da adversidade da situação surgiu
a união e a mobilização da categoria. Compreendemos que
é necessário empenharmos os nossos votos com candidaturas que
demonstrem um entendimento da política ambiental adequada e estejam dispostos
a defendê-la no plenário.
Somos 10 mil criadores legalizados no DF. Mais de 200 mil no Brasil. Para cada
criador legalizado há uma centena na clandestinidade. A atividade gera
empregos e movimenta a economia. Para compreender sua dimensão basta
observar que o Brasil, em 2009, importou mais de 200 milhões de dólares
em alpiste, apenas do Canadá e da Argentina.
Em 1 a cada 5 lares brasileiros há, ao menos, um espécime de nossa
fauna nativa, a maioria com origem ilegal. Permitir ou proibir pouco altera
esse quadro. Está nas raízes de nossa cultura. Em nosso DNA. Quando
o colonizador desembarcou em nossas praias já encontrou os índios
com os seus xerimbabos (animal de estimação em tupi-guarani).
No cenário internacional a situação é ainda pior.
O trafico internacional de animais tornou-se o 3º mais importante, superado
apenas pelas drogas e pelo armamento. O IBAMA estima que o Brasil participe
desse mercado com 38 milhões de espécimes coletados na natureza.
Mas se não há meios de reduzir essa demanda por animais de estimação,
que inclui os nossos silvestres, podemos reduzir a pressão da captura
na natureza, reproduzindo em ambiente doméstico as espécies de
maior interesse.
Quando alguém adquire um pássaro com origem legal compromete-se
com a legalidade e abandona a clandestinidade. Jamais abrirá mão
da nova condição adquirida para buscar outros espécimes
na natureza. É necessário promovermos uma nova consciência.
As pessoas precisam saber que podem ter seus pássaros em casa sem causar
qualquer prejuízo à natureza. É imperioso que se crie um
ambiente favorável à migração dos que vivem na ilegalidade
e desejam buscar a harmonia com a legislação em vigor, pelo bem
dos espécimes de vida livre, que devem continuar em liberdade.
A origem de todas as nossas dificuldades no relacionamento com o IBAMA é
conceitual.
Até a década de 80 a discussão ambiental procurava estratégias
que pudessem manter o que restava do ambiente natural livre da presença
humana. Com taxa ZERO de desfrute. Todas as políticas que seguiram o
dogma da radicalidade fracassaram.
A humanidade cresce exponencialmente e há necessidade ocupação
territorial para novas habitações. A fronteira agrícola
se distende para a produção de maior quantidade de alimentos.
É um quadro de difícil reversão.
Nos anos 90 o pensamento preservacionista evoluiu a partir do trabalho de cientistas
ambientais.
A Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o
Desenvolvimento (CNUMAD), realizada no Rio de Janeiro em 1992, conhecida como
ECO 92, foi um marco nessa evolução do pensamento mundial, consagrando
o conceito de desenvolvimento sustentável.
Como resultado da ECO 92 foi produzido o documento conhecido como Agenda 21,
para nortear a política ambiental no âmbito das Nações
Unidas.
Este documento foi discutido e negociado exaustivamente entre representantes
de 150 países ali presentes, sendo, portanto um produto diplomático
contendo consensos e propostas.
Na versão oficial da Agenda 21, publicada pelo Senado encontramos:
Capitulo11, Item 11.20, subitem h
(h) Promover e apoiar o manejo da fauna e da flora silvestres, bem como do turismo
ecológico, inclusive da agricultura, e estimular e apoiar a criação
e o cultivo de espécies animais e vegetais silvestres, para aumentar
a receita e o emprego e obter benefícios econômicos e sociais sem
efeitos ecológicos daninhos;
Chamo a atenção dos senhores para os verbos empregados no texto
oficial: PROMOVER, APOIAR, ESTIMULAR e não apenas permitir ou muito menos
restringir.
Nos quadros do IBAMA vem se desenvolvendo uma corrente filosófica contrária a manutenção de espécimes de nossa fauna em ambiente doméstico. Essa corrente ganhou corpo no período em que a senadora Marina Silva esteve à frente do Ministério do Meio Ambiente.
Achamos pouco provável que qualquer um de nós, criador ou técnico
do IBAMA, tenha uma visão mais adequada da questão da reprodução
de silvestres em ambiente doméstico do que a dos cientistas que representaram
suas nações nas diversas convenções promovidas pela
ONU.
Ainda que um técnico do IBAMA tenha um pensamento discordante, não
poderá enquanto funcionário público, valer-se de suas prerrogativas
funcionais para militar em ideologia contrária a política determinada
pelo Estado.
O apoio do IBAMA à campanha recentemente lançada pela WSPA com
o slogan SILVESTRE NÃO É PET é a negação
da Agenda 21.
Temos exemplos claríssimos dos resultados da criação ex-situ
de silvestres como elemento de apoio a preservação das espécies:
A Ararinha Azul (Cyanopsita spixii), não teve sua reprodução
em cativeiro autorizada. Está extinta no Brasil. Um casal pode ser adquirido
em criatórios nos EUA, Europa e Oriente Médio, por preços
que variam de US 50.000,00 a US 80.000,00.
O Bicudo ( Oryzoborus Maximiliani) está praticamente extinto na natureza.
Teve sua reprodução em cativeiro autorizada e já podemos
contar com uma quantidade de pássaros registrados 10 vezes maior do que
toda a que já existiu em vida livre. Em 2008, através da COBRAP,
os criadores ofereceram ao IBAMA a quantidade de espécimes que o órgão
julgasse necessária para repovoamento de áreas preservadas. O
IBAMA recusou nossa oferta alegando não ter estrutura para conduzir o
necessário processo de readaptação para a soltura das aves.
Se o IBAMA assume não ter estrutura sequer para reintroduzir espécimes
que os criadores amadoristas produziram, como espera garantir a perpetuação
das espécies ameaçadas de extinção. A menos de 10
km da sede do IBAMA, várias áreas de preservação
ambiental estão tomadas por condomínios residenciais. Se o IBAMA
não conseguiu proteger áreas tão próximas, o que
podemos esperar nas regiões mais distantes?
Os radicais argumentam que a manutenção e reprodução
de silvestres em cativeiro estimulam a demanda e levam outras pessoas a coletarem
espécimes na natureza. É justamente o contrário. Nas convenções
promovidas pela ONU ficou evidente o entendimento da comunidade internacional
de que reprodução em cativeiro concorre com o tráfico e
reduz a pressão de captura na natureza.
Os radicais argumentam que muitos criadores empregam as anilhas que recebem
do IBAMA para esquentar pássaros capturados na natureza. É certo
que em nosso meio existem bandidos travestidos de criadores, que se valem do
registro na categoria para praticar delitos. Também é certo que
vários funcionários do IBAMA se envolveram em falcatruas com distribuição
de anilhas e com o licenciamento ambiental. Nem por isso tomaremos a parte pelo
todo. Não podemos considerar que o IBAMA seja uma instituição
corrupta nem que os criadores de pássaros sejam traficantes de aves.
O IBAMA, em absoluta contradição com a política ambiental
adotada pelo Estado, ao invés de PROMOVER, vem minando a atividade.
Proíbe que pássaros produzidos por criadores amadoristas sejam
comercializados. Autoriza apenas as trocas. Alega impedimento tributário.
Como se fosse da alçada do IBAMA a preocupação com tributos.
A portaria Nr 131 de 1988 reduziu a possibilidades dos criadores amadoristas
aos passeriformes. Não podemos dede então, criar psitacídeos
ou outras aves.
A portaria Nr° 631, de 18 de março de 1991, limitou a possibilidade
de criação a 316 espécies.
A Instrução Normativa Nr 01, em 24 de Janeiro de 2003, reduziu
para 151espécies autorizadas.
Uma minuta da próxima portaria que está para ser publicada extingue
o criador amadorista e cria a figura do mantenedor, que não poderá
dedicar-se a reprodução.
Obriga todos os que desejarem reproduzir nossos silvestres a migrarem para a
condição de criador comercial.
A publicação dessa Instrução Normativa será
o derradeiro golpe na atividade de reprodução ex-situ dos nossos
silvestres. Poucos terão a estrutura necessária ou interesse em
migrar para a categoria de criador comercial.
Não haverá demanda para as fêmeas produzidas pelos criadores
comerciais.
É chegado o tempo da sociedade, através de seus representantes
no Congresso Nacional, decidir se está certo o IBAMA com sua política
restritiva ou estão certos os especialistas internacionais que produziram
os documentos que orientam as políticas ambientais no âmbito das
Nações Unidas.
Isso enquanto há espécimes a serem preservados.
Clóvis Pereira Neves
Criador amadorista de pássaros