MUDA DE PENAS
Mesmo sendo muito resistentes, as penas dos pássaros precisam ser substituídas anualmente. Embora, a qualquer momento, se uma pena for arrancada ou vier a cair por qualquer motivo, outra nasça em seu lugar, a época da muda das penas ocorre após a estação de reprodução, no período compreendido entre janeiro e maio, com maior concentração nos meses de fevereiro e março.
Na natureza o período de troca da plumagem se arrasta por cerca de quatro
meses. Em viveiros ou gaiolões também é mais demorada.
Tudo por conta da necessidade de o pássaro manter uma condição
ótima de vôo.
Em ambiente doméstico, ocupando gaiolas típicas, um bicudo não
deve levar mais de 8 semanas na troca da plumagem. Há espécimes
que completam a muda em 40 dias, mas estes são a exceção
e não a regra.
A época da muda varia um pouco de uma região para outra, sendo
influenciada pela temperatura, umidade relativa do ar e, principalmente pelo
foto-período.
Aspectos psicológicos podem influenciar a entrada do pássaro em
muda. Um bicudo em meio às fêmeas ou ouvindo e disputando canto
com outros machos poderá retardar sua entrada na muda. O pássaro
necessita tranqüilidade para uma muda natural.
Devemos evitar prolongar o período de reprodução para não
comprometer a muda do plantel. Os filhotes tirados a mais nessa temporada, serão
cobrados na produção futura.
Fatores de estresse como mudança de ambiente, viagens, variações
bruscas de temperatura, mudanças e desequilíbrios na dieta poderão
precipitar a entrada do pássaro na muda.
Há quem busque induzir a entrada em muda, forçando uma situação
de estresse para o pássaro. A forma mais comum são os choques
vitamínicos na dieta. Muitos deixam que os pássaros passem fome
e/ou sede. Aumentar a quantidade de zinco na dieta também induz à
entrada na muda.
Forçar a muda não é prática recomendável.
A muda é um processo natural na vida das aves, relacionado a fatores
biológicos, ligados aos hormônios produzidos pela tireóide.
A fase da muda é mais complexa que a simples substituição
das penas, envolvendo processos que não são percebidos como, por
exemplo, a reorganização do aparelho reprodutivo. Durante a muda,
as fêmeas não produzem óvulos e os machos perdem temporariamente
a fertilidade. Daí ser comum ocorrer de um bicudo, próximo de
entrar na muda ou terminando-a, galar uma fêmea e não fertilizar
os ovos.
Durante a muda os bicudos esfriam, param de cantar e na maioria das vezes diminuem
muito a sua movimentação na gaiola. Na natureza param as disputas
territoriais e se juntam aos bandos, machos e fêmeas.
Em nosso criatório adotamos a retirada dos ninhos e das divisórias
separadoras das gaiolas, permitindo que as fêmeas mantenham contato visual
em tempo integral, desde o término da estação de reprodução
até o final da muda. Esse procedimento faz com que mesmo as fêmeas
mais fogosas, que ainda estão querendo cruzar, esfriem e entrem em muda.
Os galadores são retirados do ambiente.
As penas devem cair devagar, naturalmente, de forma a que quase não se
perceba sua entrada em muda. Se de um dia para outro a gaiola aparecer forrada
de penas ou se partes da pele estiverem expostas, há algo errado.
Os filhotes nascem quase pelados, cobertos com uma finíssima plumagem.
Aos poucos vão aparecendo as penas e quando saem do ninho já estão
empenados por inteiro.
No terceiro ou quarto mês de vida efetuarão uma muda que chamamos
muda de ninho. Essa muda não é completa. As penas das asas e da
cauda não são substituídas (rémiges e rectrizes).
Mudam somente as penas do peito e da cabeça.
Nos adultos a muda das penas das asas e do rabo é iniciada do centro
para as extremidades. Em ambas as asas as quedas são simultâneas.
As penas do corpo são renovadas quase simultaneamente e as últimas
a serem substituídas são as da cabeça. Dizemos que um bicudo
enxugou a muda quando não vemos mais nenhum cartucho de penas novas em
sua cabeça.
Podem ocorrer características particulares na muda de alguns pássaros,
sem que, necessariamente, esteja ocorrendo um problema. Em nosso criatório
há uma fêmea que inicia a muda perdendo quase todas as penas da
cabeça, permanecendo assim até o final da muda. Todos os anos
é a mesma coisa. Sua muda se completa sem nenhum problema. Há
ainda um macho que fica com um pedaço da nuca sem penas durante toda
a muda. Se não o conhecesse-mos seria tratado contra ácaros. Terminada
a muda volta ao normal, com uma plumagem muito bonita. São exemplos de
pássaros com características atípicas na muda.
No final da primeira muda completa os bicudos machos apresentam penas marrons
mescladas com penas pretas, sendo chamados pintões ou maracajás.
Essa plumagem marca o que seria o período de adolescência do bicudo.
Na próxima muda ficará com a definitiva plumagem negra e será
considerado adulto.
A muda de penas é um evento natural na vida dos pássaros, não
pode ser tratada como uma enfermidade. No entanto, os pássaros ficam
mais debilitados e suscetíveis às doenças nesse período,
inspirando mais atenção, especialmente com variações
bruscas de temperatura e com correntes de ar.
Temperaturas mais elevadas favorecem uma muda mais rápida. Muitos criadores
encapam a gaiola durante a muda, com a intenção de manter o pássaro
mais tranqüilo e protegido de variações bruscas de temperatura.
Com a menor circulação de ar pela gaiola encapada, podem surgir
problemas sanitários causados pelos vapores emanados dos excrementos
do pássaro, notadamente a amônia. Podem ocorrer desde irritações
dos olhos e das vias respiratórias até uma intoxicação
mais séria. Para contornar o problema, é colocado na bandeja da
gaiola carvão vegetal triturado. O carvão vegetal é conhecido
pela sua capacidade de absorção e retenção de substâncias
químicas. Tanto é que sua presença é comum em muitos
filtros. Isso deu início à lenda de que carvão no fundo
da gaiola ajuda na muda. Já vimos vários criadores com gaiolas
desencapadas e forradas de carvão, para “desencruar a muda”.
Os banhos são permitidos e recomendados, com a precaução
de evitar dias e horas mais frios. Duas gotinhas de vinagre de maçã
na água do banho ajudam na prevenção de ácaros e
conferem um aspecto de limpeza à plumagem. Banhos de sol são excelentes.
Uma dieta equilibrada é garantia de muda bem feita. Se o criador desejar
uma suplementação especial para a muda, pode ministrar Hemolitan
Pet (1 gota em 50 mL) por 5 dias consecutivos na entrada da muda. Suplementar
a dieta com lisina e metionina, que as aves podem converter em cistina, contribui
para a formação de uma melhor plumagem. A proteína nos
tecidos das penas contém elevados teores de cistina.
Na mistura de sementes cabe incluir 5% de sementes de linhaça, para que
a plumagem adquira mais brilho.
Quando um pássaro muda de forma mais lenta, é comum ouvirmos que
está com muda francesa. No entanto, não há propriedade
nessa afirmação, se o pássaro não estiver acometido
por um vírus natural dos mamíferos que se adaptou às aves,
mais precisamente um polyomavirus, da família dos papovaviridae, neste
caso designado por um avipolyomavirus. Na realidade, a muda francesa se trata
de uma variante menos fatal do verdadeiro vírus, designado por Budgerigar
Fledgling Disease Virus (BFDV), característico por afetar o crescimento
das penas. Pássaros adultos poderão ser portadores assintomáticos
dessa virose. É comum que apresentem plumagem irregular e sem brilho,
com algumas penas mais curtas ou eriçadas.
Quando a muda não transcorre como o previsto, devemos buscar as causas
do problema.
As causas clínicas mais comuns são parasitas de pele, parasitas
internos (vermes, protozoários), infecções bacterianas
ou fúngicas na pele ou nos folículos das penas, alergias, distúrbios
hormonais, desnutrição, aspergilose (infecção respiratória
fúngica), doenças internas (doenças hepáticas) e
carências nutricionais.
As causas psicológicas ou comportamentais são o estresse, medo,
susto, luz no criatório reduzindo as horas de sono, mudança brusca
na rotina do pássaro, presença de outros pássaros cantando
no recinto ou mistura de machos e fêmeas, principalmente, em diferentes
estágios da muda.
Outra prática tradicional de muitos criadores é colocar o pássaro
para exercitar-se em gaiolões no final da muda.
E exercícios são benéficos não apenas para os pássaros.
No entanto, colocar um pássaro em um gaiolão e depois de um mês
devolve-lo à gaiola convencional é uma prática de pouca
valia. Equivale a praticarmos esporte durante um mês por ano.
Os pássaros que são condicionados a permanecer em gaiolões,
passando para gaiolas convencionais apenas por ocasião de passeios, treinamentos
e torneios, apresentam condição física superior em suas
apresentações. É impressionante como se mostram alegres
com a aproximação da gaiola. Sabem que vão passear.
Concluída a muda é hora de vermifugar o plantel, cortar as unhas
que estiverem fora de medida e iniciar os preparativos para a temporada de reprodução
e torneios.